quarta-feira, 8 de junho de 2011

“As Carvoarias do Pego” II - O trabalho da Mulher Pegacha.

Falar das carvoarias e dos carvoeiros sem falar das mulheres que também executavam estes trabalhos árduos, era como deixar um trabalho incompleto e imperfeito.
A mulher Pegacha, grande suporte do homem neste duro trabalho das carvoarias, que por este pais fora ganharam fama de bons trabalhadores e artífices na arte de produção do carvão vegetal, desde cedo, assumiu um papel muito importante, pois alem de partilharem a dureza das tarefas e havia mesmo as que só eram feitas pelas mulheres.
O texto que se segue, é da autoria de ISILDA JANA, professora de história, e também ela uma mulher Pegacha, no qual tenta descrever os pormenores do trabalho árduo das mulheres nas carvoarias.

"A MULHER NAS CARVOARIAS" 
 
""As mulheres sempre estiveram ao lado dos homens nas carvoarias.
Sempre partilharam a dureza das tarefas e havia mesmo as que só eram feitas pelas mulheres.
Todas as tarefas que, de algum modo se podem associar ao trabalho doméstico, eram feitas pelas mulheres: ir buscar água, fazer comida, lavar e tratar da roupa, cuidar dos filhos, ir buscar o “avio” a uma loja da localidade mais próxima. Tudo isto era, normalmente, trabalho da mulher.
Mas a par disto havia o trabalho propriamente dito.
Vejamos o que poderia ser um dia nas carvoarias.
De manhã, muito antes do nascer do sol, o “manajeiro” dava o sinal de acordar. A malta acordava e depois de se vestir e enrolar o fato da cama, partia para o local de trabalho. Ás vezes bem longe.
Os filhos iam com os pais, ou quando já eram crescidos ficavam a dormir e depois iam ao forno.
As mulheres levavam á cabeça o cesto, aviado na véspera, com tudo aquilo que era necessário para fazer a comida do dia.
Chegados ao local de trabalho, era hora de tomar o “desinjum” ( o dejejum), um bocado de pão com conduto ( queijo, toucinho, morcela ), um golo de vinho, ou pouco de leite em pó com cacau. Esta era a primeira refeição do dia.
Entretanto a mulher deixava a posta de bacalhau que iria fritar para se comer com as migas do almoço.
Depois pegava-se ao trabalho. Homens e mulheres ficavam lado a lado a enfornar.
E quando a enforna estava quase pronta, era necessário ir buscar “tapum”, ou tapume (junco, bracejo, fetos ou mato) com que se cobria a lenha antes de” terrar" o forno. Ceifar e trazer à cabeça para o forno grandes “feixos” com que se cobria a lenha era trabalho das mulheres.
Mas antes de ir ao tapume, as mulheres punham ao lume a panela de barro com as batatas para as migas. Eram cozidas com a pele.
Algum tempo depois voltavam as mulheres com grandes feixes á cabeça. Atiravam-nos para o chão e lá começavam a tapar o forno. Mas já eram 11horas e estava na hora de preparar o almoço. As mulheres descasavam as batatas cozidas e fritavam o toucinho em torresmos e no unto faziam as migas. Quando tudo estava pronto, chamavam os homens e as crianças e todos comiam á sombra dos sobreiros.
Depois do almoço, as mulheres lavavam a loiça, deixavam já a panela ao lume com feijão ou grão para o jantar. Logo de seguida pegava-se ao trabalho.
Entretanto, tinha-se acabado a água e lá partiam uma ou duas de cântaro ou barril à cabeça. A fonte era muitas vezes lá bem longe. Uma bica que corria bem fresquinha apesar da secura e do calor tórrido do Verão. Ir e vir podia bem levar meia hora de caminho, mas valia a pena porque, quando chegavam, todos pediam água fresca. O cântaro era depois colocado á sombra e sobre o mesmo era colocado um saco molhado que mantinha a água fresca.
Entretanto a malta, o conjunto das pessoas, cobriu já o forno com o tapume e começou a terrar.
Homens e mulheres cavavam e colocavam terra, tapando a lenha até á fiada, mais ou menos a meio do forno. Depois punha-se a fiada, uma faixa de mato a toda a volta do forno que ajudava a segurara a terra. Dai para cima era mais trabalho dos homens. Era preciso força para levar as pás bem cheias de terra até lá cima. Era um trabalho muito duro.
As mulheres iam cavando á volta do forno, para arranjar terra que os homens com as pás atiravam para cima do forno.
Entretanto as mulheres já juntaram a mistura (arroz, massa, couve…) no feijão ou grão que estava ao lume desde o almoço. Por volta das três da tarde era o jantar. De seguida a sesta.
Eram duas horas, entre as três e as cinco da tarde. A maior força do calor era passada á sombra de um sobreiro ou azinheira. Uns dormiam, outros só descansavam. Por vezes as mulheres aproveitavam para dar uns pontos na roupa ou para fazer algum bordado.
Era tempo de recuperar forças que terminava com o grito:
- Água Fresca! Vindo do manajeiro.
E logo se retomava o trabalho.
Os homens terminavam de terrar o forno e deitavam-lhe fogo e deitavam-lhe fogo. As mulheres começavam a escolher preparar a lenha para enfornar o próximo. É um trabalho que as mulheres não gostavam muito de fazer pois muitas vezes, debaixo da lenha, escondem-se as cobras.
E começa tudo de novo. Até que ao sol-posto homens e mulheres largam o trabalho.
Elas voltam com os cestos á cabeça. Logo que chegam á malhada acende-se o lume e prepara-se a ceia. Arroz ou massa com bacalhau… por vezes misturam batatas, mas é quase sempre o mesmo. Por vezes coelho, uma perdiz, que a caça naquele tempo era farta.
Depois de cear, os homens sentados á volta do lume, contavam histórias, deitavam contas á vida… As mulheres continuavam com a labuta, aviavam o cesto para o dia seguinte, tratavam dos filhos, por vezes lavavam alguma roupa.
E era assim, dia após dia, até ao Domingo.
Ao domingo trabalhavam até ao meio dia. Depois iam para a malhada.
Da tarde os homens descansavam ou iam até á localidade mais próxima beber um copo. Por vezes iam nas bicicletas e traziam o avio. As mulheres continuavam a labuta.
Lavavam-se e lavavam os filhos. E depois, grande parte da tarde era passada a lavar roupa da semana no ribeiro ou barragem mais próxima. Esta tarefa sabia a descanso apesar de não o ser. O sair da rotina, o contacto coma água, o estarem umas com as outras, sem os homens por perto… lavava-se a roupa e as magoas.
Ao fim do dia juntavam-se todos. Ceavam. Os homens contavam as notícias, as crianças comiam regaladas os amendoins ou os rebuçados de meio tostão trazidos pelos pais e ouvia-se a rádio.
Por fim, iam todos para a cama com a certeza de que no dia seguinte o trabalho duro os esperava.
Nas carvoarias a mulher trabalhava duro, tal como o homem.
Em todas as fases do trabalho, desde o corte e tirara cortiça, até ao fazer do carvão todas as tarefas eram partilhadas.
A mulher era o grande apoio do homem, ajudava-o no trabalho e prestava-lhe os cuidados domésticos, cozinhava, tratava da roupa… quando a mulher não acompanhava o homem, este ficava um pouco perdido, dizia-se que “fulano de tal pregou o botão com um arame”. Se andava um homem sozinho eram, normalmente, as mulheres dos outros que lhe tratavam da Panela.
Quando havia situações em que eram só malta de homens, levavam uma cozinheira que tratava das panelas de todos e alguns pagavam-lhe para lhes lavar a roupa.
Em resume, o trabalho sa carvoaria era muito um trabalho de par, em que havia uma grande interdependência entre o trabalho do homem e da mulher. Exemplificando: o homem cortava a lenha, a mulher acarretava-a para o local onde se tirava a cortiça; o homem fazia ” lêves”, a mulher carregava-as até ao forno; a mulher cavava a terra e o homem terrava; o homem fazia “asseiros” e a mulher escolhia o carvão… e eram necessários os dois para ensacar o carvão depois de feito.""

Texto de ISILDA JANA
Professora de história e ex-vereadora da cultura e educação da Câmara municipal de Abrantes

Fotos: Revista "Zahara"

Nota: Este texto está publicado no nº8 da revista "Zahara", publicada pelo Centro de Estudos de História local - Palha de Abrantes, a qual poderá ser consultada na biblioteca do Pego.

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